domingo, 29 de agosto de 2010

O CAMINHO DAS SEMENTES




A semente não pode saber o que lhe vai acontecer, a semente jamais conheceu a flor. E a semente não pode nem mesmo acreditar que traga em si a potencialidade para transformar-se em uma bela flor.


Longa é a jornada, e sempre será mais seguro não entrar nessa jornada, porque o percurso é desconhecido, e nada é garantido. Nada pode ser garantido.

Mil e uma são as incertezas da jornada, muitos são os imprevistos e a semente sente-se em segurança, escondida no interior de um caroço resistente. Ainda assim ela arrisca, esforça-se; desfaz-se da carapaça dura que é a sua segurança, e começa a mover-se.

A luta começa no mesmo momento: a batalha com o solo, com as pedras, com a rocha. A semente era muito resistente, mas a plantinha será muito, muito delicada, e os perigos serão muitos. Não havia perigo para a semente, a semente poderia ter sobrevivido por milênios, mas para a plantinha os perigos são muitos. O brotinho lança-se, porém, ao desconhecido, em direção ao sol, em direção à fonte de luz, sem saber para onde, sem saber por quê. Enorme é a cruz a ser carregada, mas a semente está tomada por um sonho, e segue em frente. Semelhante é o caminho para o homem. É árduo. Muita coragem será necessária.

Existem pequenas flores silvestres que enfrentam o desafio das rochas, das pedras em seu caminho, para aflorarem à luz do dia.

Envoltas em uma brilhante aura de luz dourada, elas exibem a majestade do seu pequenino ser. Sem nenhum constrangimento, equiparam-se ao sol mais brilhante.Quando nos defrontamos com uma situação muito difícil, há sempre uma escolha: podemos ficar repletos de ressentimentos e tentar encontrar alguém ou alguma coisa em que pôr a culpa pelas nossas dificuldades, ou podemos enfrentar o desafio e crescer.As flores nos mostram o caminho, na medida em que a sua paixão pela vida as conduz para fora da escuridão, para o mundo da luz.

Não há nenhum sentido em se lutar contra os desafios da vida, ou tentar evitá-los ou negá-los. Eles estão aí, e se a semente deve transformar-se na flor, precisamos passar por eles.

Seja corajoso o bastante para transformar-se na flor que você foi feito para ser.

Texto extraido do site rose ou seja simplesmente rose

SER TRANSPARENTE



Difícil ser transparente?


Às vezes, fico me perguntando porque é tão difícil ser transparente...

Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros.


Mas ser transparente é muito mais do que isso. É ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar do que a gente sente...

Ser transparente é desnudar a alma, é deixar cair as máscaras, baixar as armas, destruir os imensos e grossos muros que nos empenhamos tanto para levantar...


Ser transparente é permitir que toda a nossa doçura aflore, desabroche, transborde!


Mas infelizmente, quase sempre, a maioria de nós decide não correr esse risco.


Preferimos a dureza da razão à leveza que exporia toda a fragilidade humana.


Preferimos o nó na garganta às lágrimas que brotam do mais profundo de nosso ser...
Preferimos nos perder numa busca insana por respostas imediatas a simplesmente nos entregar e admitir que não sabemos, que temos medo! Por mais doloroso que seja ter de construir uma máscara que nos distancia cada vez mais de quem realmente somos, preferimos assim: manter uma imagem que nos dê a sensação de proteção...

E assim, vamos nos afogando mais e mais em falsas palavras, em falsas atitudes, em falsos sentimentos.

Não porque sejamos pessoas mentirosas... mas apenas porque nos perdemos de nós mesmos e já não sabemos onde está nossa brandura, nosso amor mais intenso e não-contaminado.

Com o passar dos anos, um vazio frio e escuro nos faz perceber que já não sabemos dar e nem pedir o que de mais precioso temos a compartilhar com os irmãos, doçura, compaixão...a compreensão de que todos nós sofremos... nos sentimos sós... imensamente tristes e choramos baixinho antes de dormir... num silêncio que nos remete a uma saudade desesperada de nós mesmos...

Daquilo que pulsa e grita dentro de nós, mas que não temos coragem de mostrar àqueles que mais amamos!

Porque, infelizmente, aprendemos que é melhor revidar, descontar, agredir, acusar, criticar e julgar do que simplesmente dizer:

Você está me machucando... pode parar, por favor?

Porque aprendemos que dizer isso é ser fraco, é ser bobo, é ser menos do que o outro...

Quando, na verdade, se agíssemos deixando que a nossa razão ouvisse também o nosso coração, poderíamos evitar tanta dor, TANTA DOR...
Não devemos ter medo dos confrontos...

Mas sugiro que deixemos explodir toda a nossa doçura!

Que consigamos não prender o choro, não conter a gargalhada, não esconder tanto o nosso medo, não desejar parecer tão invencíveis...

Que consigamos tentar não controlar tanto, responder tanto, competir tanto...

Que consigamos docemente viver... sentir, amar...

E que você seja não só razão, mas também coração, não só um escudo, mas também sentimento.

Seja transparente, apesar de todo o risco que isso possa significar.

desconheço o autor)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

COMPAIXÃO- PERDOE E LIBERTE

Muito se fala sobre compaixão, mas realmente pouco se pratica. Hoje em dia, a palavra AMOR tem conotação muito vulgar, não se sente...só se fala...
Não é a toa que as pessoas estão se tornando tão frias nos relacionamentos, há um afastamento evidente do centro universal do puro amor..DEUS.
Há um forte desejo pelo material, pelos prazeres carnais, pela beleza física, pelo poder manipulador, pelo ego inflado e em nome disso as pessoas dizem que amam, que são compassivas, mas não praticam caridades, bondades, não são gratas, julgam e não perdoam, são interiormente cruéis a ponto de aniquilar alguma pessoa que atrapalhe suas conquistas.

Onde está o verdadeiro Eu, o interior amoroso, realmente compassivo, que sente a dor de seu próximo e o ajuda a aliviar?? Onde está o coração amoroso verdadeiramente que perdoa aqueles que lhe fazem mal, que não cobiçam nada de outrem...que se sente feliz com o sucesso e felicidade dos outros, porque é assim que deve ser...???
Onde está o PURO AMOR???
Se você é ferido, se você sofre agressões físicas, mentais, emocionais...você consegue perdoar? Consegue entender o nível de desenvolvimento espiritual que está a pessoa que age fora das leis de DEUS???
Onde está o PURO AMOR???
Claro que ao recebermos as energias, das pessoas que nos agridem, sofremos...mas não devemos deixar que isso impregne nossa alma, devemos trabalhar constantemente pelo perdão, porque essa pessoa sofre muito mais do que quem ela agride, porque ela sofre de um mal muito maior do que o mal que fez a alguém, ela sofre de uma dor dilacerante na alma...ferida que sangra constantemente, dói, queima...ela sofre de ódio, rancor, ela sofre porque tem ausência de DEUS dentro de si...e cabe a nós que temos esse PURO AMOR, emanar essa energia para que essas criaturas sem amor possam também conhecer essa felicidade...

Costumo dizer que mais sofre quem agride...porque sofre duas vezes...ao fazer e ao receber o retorno de suas ações, pois certamente o Universo devolve suas ações multiplicadas infinitas vezes porque a energia se junta às semelhantes e voltam com muito mais força..e assim o mal de propaga... e pensando nessa mesma linha de raciocício...quem emanar perdão, amor, gratidão....receberá também em profusão, com força maior essa virtudes do bem...
O que você considera melhor para o retorno??? A mim não importa quantas feridas me causaram, e sim a forma como as curei...eu busco dentro de meu ser, uma força superior a qualquer maldade humana, uma força abstrata que se multiplica infinitamente a cada segundo e que faz meu coração bater...o Amor Compassivo...e vou sempre continuar com minha frase: Eu perdôo a mim, a tudo e a todos...e sigo meu caminho me libertando das amarras que me foram lançadas, mas que eu gentilmente...desfaço!

Amor Compassivo é muito mais que dizer, sinto pena...coitado(a)..., é sentir como sofrem esses corações doentes e de alguma forma amenizar essa dor...
Não é necessário caminhar junto daqueles que perdoamos e enviamos amor compassivo...não...liberte-se e liberte a pessoa, cada um seguindo seu caminho em direção ao seu melhor de acordo com sua evolução...Agir com Compaixão pede muita Sabedoria também...se não é bom estarem juntos, não fiquem juntos, só não sobrecarregue seu coração com mágoas , raivas, invejas...limpe tudo isso e LIBERE...assim haverá mais espaço dentro de você para mais Compaixão...
Perdão e Compaixão são virtudes divinas imprescindíveis para nosso equilíbrio e felicidade. Mas precisam ser praticadas por muito tempo até que suas raízes se solidifiquem e não sejam arrancadas com um vento fraco - um pequeno acontecimento desagradável, mas se nós exercitarmos todos os dias de nossa vida, nem um furação poderá arrancar essas virtudes de nosso coração!
Que todos os seres sejam livres dos sofrimentos e de suas causas!!!
Lokha Samasta Sukhino Bhavantu
Texto de Rose Colaneri.
Luz, Paz e Compaixão
Leis dos direitos autorais 9610/98 violá-la é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal Brasileiro

QUAL O MOMENTO CERTO PARA ROMPER UM RELACIONAMENTO?

Não é uma resposta fácil de obter em poucos minutos, isso porque a harmonia nos relacionamentos é algo que viemos aprender a conquistar, em outras palavras, é uma das nossas metas no que tange a missão de cada um nessa existência.

As coisas acontecem das mais diferentes formas entre as pessoas que se amam e se relacionam, mas quando surgem os conflito, é incrível notar que os problemas são sempre os mesmos: cobranças, desafetos, falta de paciência ou tolerância, mágoas, apego, ciúme, controle, egoísmo e por aí vai.

Daí a dificuldade de sabermos se quando uma crise vem é hora de abandonar ou não um relacionamento, porque essas emoções negativas estão sempre envolvidas, e sobre elas, a humanidade ainda não encontrou domínio.

Somos meros iniciantes na arte de conquistar harmonia sobre esses sentimentos tão comuns na vida de qualquer pessoa.

Em outras palavras, podemos ser comparados a crianças inocentes quando o assunto é dominar emoções inferiores.

E essa imaturidade é a causa principal do sofrimento que pode aflorar em qualquer relacionamento...Independente disso, estamos vivendo, sentindo e mergulhando nas experiências promovidas pelos relacionamentos, o que os qualificam como grandes mestres de nossa evolução, porque sempre que olhamos para o passado, mesmo que encontremos sofrimento, dor, sempre notamos aprendizados na jornada de qualquer pessoa que se envolve em relações, e assim sempre será. Mas como medir a qualidade de um relacionamento?

Como identificar de forma consciente se um relacionamento é nocivo ou saudável? Como saber se o passo certo é apostar na relação, perdoar, tolerar, apoiar ou se é abandonar o barco?

Existe uma forma de enxergar tudo isso?

É razoável pensar que duas pessoas só se unem com o propósito de se tornarem melhores juntas, dessa forma, essa união promove um crescimento, uma maior energia, e assim o sucesso acontece, em todos os sentidos.

Quando duas pessoas se aproximam, elas devem manter-se juntas sempre que a evolução for mantida e o amor, o respeito e a força de cada um separadamente, devem crescer!

Esse é um bom indício de que o relacionamento é saudável.

Você deve olhar para o seu relacionamento e se perguntar: Eu estou evoluindo junto com a outra pessoa? A pessoa está evoluindo comigo?

Nós juntos somos mais fortes do que separados?

Quando estamos próximos, nossa energia positiva aumenta?

Nossa harmonia se fortalece?

Obviamente que se o seu relacionamento for saudável a resposta será SIM!

Mas quando nem um, nem outro crescem na relação, as cobranças surgem e o amor escapa, não há evolução, não há crescimento, portanto a intoxicação acontece. Da intoxicação pode surgir a obsessão ou seu oposto, a repulsão.

Ambas são terríveis manifestações de desamor.

Quando a crise vem pelas cobranças, olhe para você e atente para o fato de que o que você realmente quer não está na outra pessoa, mas dentro de você, portanto não projete na pessoa aquilo que você gostaria que ela fosse para te agradar.

Se você ama uma pessoa simplesmente porque ela lhe faz coisas que você gosta e é isso que mantém o "amor", então o relacionamento não deverá ser duradouro, porque seu amor é condicional e não incondicional.

Então o relacionamento deve acabar quando o amor for condicional a atos, porque dessa forma as cobranças surgem naturalmente metralhando toda harmonia que ainda reste.

Quando um sofre, está em desequilíbrio, em uma fase ruim, mas não quer a sua ajuda, então dê-lhe a liberdade que é pedida, esse é o momento certo de sair e continuar sua vida sem essa pessoa.

Se você fica, então aceita a condição de não evoluir, isso é martirizar-se, é uma atitude tóxica para sua alma que almeja evolução. Jamais se diminua para ser aceito(a).

Outra situação é quando a relação esfria, quando as duas pessoas se desmagnetizam, quando não há nem amor e nem ódio, nesse caso você deve "pular fora", porque assim você já será um(a) caminhante solitário(a) mesmo, então formalize essa condição e recomece sua vida.

Bom senso, amor, respeito e paciência são ingredientes básicos. Mas lembre-se, pessoa alguma poderá tampar um buraco emocional dentro da sua alma.

Essa tarefa cabe apenas a você, e deve ser feita com muita busca consciencial.

Sempre que você quiser abastecer suas carências na outra pessoa estará condenado(a) a um relacionamento sem harmonia que não promoverá qualquer evolução para a sua alma.

Aposte em você, alimente seu espírito, sua força interior e sua autoestima e dessa forma você terá grandes chances de ser muito feliz em um relacionamento.



Paz e Luz em seu coração!

Retirado do site: http://espiritualidade-nocaminhodaluz.blogspot.com/2010/08/qual-e-o-momento-certo-de-romper-ou.html

quinta-feira, 24 de junho de 2010

CLASSIFICAÇÃO: UMA PEDAGOGIA DA EXCLUSÃO

CLASSIFICAÇÃO: UMA PEDAGOGIA DA EXCLUSÃO
Liliane Vieira Longman*


Em: Gestão em Rede, Outubro de 2002, Nº 40, pp. 11-15


Tentarei questionar os modelos de identidades classificatórios, verdadeiras trapaças ideológicas, que nos pegam nos vários discursos ideológicos\classificatórios da escola. Tome-se como exemplo os conflitos de valores construídos na escola, que consideram as diferenças como deficiência, tendo como base os padrões normativos hegemônicos. Esses, têm sido uma das maiores causas de desenvolvimento da ideologia da normalidade. Esta ideologia, da deficiência do outro, tanto pode ser construída a partir das diferenças lingüísticas, culturais, sociais como também da falta de traços biológicos ou, mais ainda, construída nos compêndios da psicopatologia e da medicina. Nos enganamos ao pensar que avançamos ao construir discursos pseudo-filosóficos, epistemológicos, até humanistas, mas na verdade não enfrentamos a questão fundamental: para que classificar? Que motivação a educação criou para definir grupos de pessoas a partir de traços, marcas, faltas, sexo, cor etc.? Para que e para quem servem esses modelos classificatórios e excludentes?


A crise na educação têm raízes estruturais e se tornou uma obviedade nas suas várias mani- festações de confrontos metodológicos, gestão, formação e baixa qualidade. As crises não diminuem, porque os problemas sociais se agravam a cada dia neste último século. A questão que apresento está inserida no contexto da exclusão social, mais especificamente da discriminação construída a partir dos modelos pedagógicos desenvolvidos nas escolas. Explico melhor: desenvolveu-se mais um tipo de ideologia nestas instituições de ensino, que apelidei de pedagogia da classificação. Ao longo desses mais de vinte anos de vivência, trabalho e convivência com os "diferentes/deficientes", sempre me perguntei: por que nomeá-lo "deficiente auditivo", "deficiente visual"?


Por que considerar deficiente aquele que sabe olhar e ver através de outros sentidos, ou têm uma experiência mais auditiva e/ou táctil do mundo? Por que considerar deficiente aquele que vê vozes ou têm uma experiência visual do mundo? Por que considerar deficiente aquele que têm uma outra forma cognitiva de pensar, que não estão inseridos na "normal/média" dos modelos piagetianos de resolver problemas? Por que ser singular é ser deficiente? Qual o cruel e escuso processo que transformou uma diferença em falta, em negação, em inferioridade, fora da média, em deficiente? Levantar questões e tentar romper com esses modelos classificatórios identitários é, no mínimo, nos deixar expostos às diferenças e criticar as posições fechadas e as ideologias contruídas e segmentadas na escola: a ideologia da cIassificação/deficiência.


As pedagogias ainda hoje excluem para homogeneizar os currículos, os alunos, os professores e, conseqüentemente, normatizar toda a escola. A escola é um dos exemplos mais emblemáticos dessa pedagogia da classificação. Seus modelos falam das classificações sociais -escolas dos ricos, dos pobres -, das geográficas -urbanas, rurais -, das etárias -do jovem, da criança, do adulto -, até das classificações individuais -carente, analfabeto, silábico, pré-silábico, hiper-ativo, lento, deficiente, normal, inteligente, de rua, sem-família, femininas e masculinas, e tantas outras "poéticas" classificações.


As pedagogias e outras ciências, não só criam, mas reforçam e cientificam as classificações, quando inventam o perfeito, o belo, o branco, o ocidental, o inteligente e quando toma a média como uma verdade natural e biológica. Os grupos que se classificam como dentro da média ou de normais, são situados de forma hegemônica na sociedade e acabam por difundir o uniforme da universalidade. É assim, por imposição ou convencimento, que a ideologia da classificação dos anormais e os valores e conhecimentos construídos por ela, são acatadas como verdade.


Paulo Freire nos fala que a ideologia é a ocultação da verdade dos fatos e que ao mesmo tem-po, nos torna míopes. É dessa miopia que precisamos ter medo. É ela que nos faz repetir tantas vezes uma "mentira" que termina se tornando "verdade", sem nos darmos conta dos preconceitos e discriminações que têm graves conseqüências na formação das pessoas. Sabemos que o principal canal de conservação dos valores e conhecimentos é a escola, e alguns intelectuais tentam sair das posições conservadoras para inovadoras, sem uma compreensão recíproca da visão de alteridade. (GHIRALDELLI, 1997). Considero como construção de uma nova visão de alteridade, sair dos modelos ideológicos e classificatórios para poder imaginar, olhar, ver, escutar, fazendo uma ruptura dos valores e conhecimentos que foram construídos e entendidos como perfeitos e naturais. Não significa apenas respeitar, como é tão propagado na escola inclusiva; não significa tão pouco, aceitar deficientes, excepcionais, portadores de deficiência e tantas metáforas construídas historicamente, dando e construindo o sentido do outro anormal, diferente, deficiente, não-normal. Significa dizer como François Jacob: "A igualdade foi inventada porque os humanos não são idênticos. Se fôssemos todos gêmeos, esta noção de igualdade, que releva da moral e da política, não teria nenhum sentido. O que Ihe dá seu valor e importância é que os indivíduos são diferentes. É a diferença que faz o sal da vida e a riqueza da humanidade".

A ideologia da diferença cultural


Quando afirmo que a construção das identidades classificatórias na pedagogia tem por refe- rência a ideologia da deficiência, quero dizer que não só os chamados portadores de deficiência entram nessa corrente. Tomei como exemplo os estudos de Magda Soares sobre linguagem e escola, e como se desenvolveu a ideologia da deficiência cultural.


A autora explica a expansão dessa ideologia da deficiência, surgida na década de sessenta nos Estados Unidos e que se difundiu para a América Latina e, em especial, no Brasil. As populações norte-americanas socialmente desfavorecidas perfaziam um total de 77 milhões de negros, portoriquenhos, chicanos, e sofriam um processo de segregação não só no mercado de trabalho, como também nas escolas. As reivindicações por essas minorias resultaram em estudos e análises "científicas", sobretudo com estudos da Psicologia, que fizeram a classificação desses grupos de crianças, por meio de testes, entrevistas, e análise de comportamento, tomando como referência um modelo ideal da classe dominante, social e economicamente privilegiada.


O resultado todos sabemos: um verdadeiro rosário de classificações -carências afetivas, deficiências perceptivas e motoras, privação cuItural, déficit lingüístico -, que tentaram explicar "cientificamente" o fracasso da criança e seu contexto cultural. Surgiu então uma "verdadeira" teoria da deficiência cultural e uma "psicologia da pobreza", que geraram "doenças, defeitos, deficiências". A teoria passou a culpabilizar o sujeito e dissimular as verdadeiras razões das desigualdades.


No Brasil a ideologia da deficiência cultural surge com 10 anos de atraso e o fracasso escolar das crianças passou a ser o discurso oficial e, conseqüentemente, o pedagógico. "Nos Estados Unidos chegou-se a afirmar, com base em pesquisas sobre a inteligência e o rendimento escolar de brancos e negros, que, se não era possível corrigir as "deficiências" das crianças negras, por meio de programas de educação compensatória, isto acontecia porque as causas dessas "deficiência" eram resultado não só da "privação cultural", mas, mais que isso, também das diferenças genéticas", afirma Magda Soares.


Podemos constatar nesse cenário de atores "deficientes" a formação de uma ideologia da deficiência que se estende para todos e, mais ainda, para os que "realmente" ainda hoje são considerados portadores de deficiência e tantas outras metáforas. A educação especial também surge neste cenário, com mais uma deficiência: as classificadas como sensórias, mentais ou físicas. Começa o ciclo, na escola pública, da educação compensatória e na, educação especial, da dupla deficiência. Com isso resolvido e determinado, dissimulam-se, pela pedagogia da classificação, as reais causas do fracasso das nossas escolas.


A lógica da deficiência cultural tomou roupagem científica na escola e iniciou um novo ciclo de pedagogias compensatórias e classificatórias, que gerou verdadeiros programas de "exclusão para inclusão" ou vice-versa. É neste cenário que configuram-se as formas mágicas de resolver problemas com soluções compensatórias. Essas soluções têm como pressuposto o fracasso da criança e surgiram numa pedagogia preventiva para reabilitar, colocando a causa na criança e não no contexto social -a pedagogia é para corrigir o aluno e não para mudanças sociais, como ocorria nos programas de pré-escolar, tão largamente difundidos na década de 70, nas nossas escolas públicas.


A referência dessa ideologia da deficiência cultural mostra como os discursos científicos da classificação, centrados no aluno, servem para desqualificar os sujeitos. No que se refere aos chamados portadores de deficiência, não se foge â regra: tem-se uma pedagogia classificatória da deficiência e, mais ainda, uma educação especial que patologiza as crianças que, ainda hoje, são vistas como deficientes.


Na construção da escola, temos que nos policiar para não acabar taxando ou classificando o outro de forma prepotente e autoritária, sem ver e analisar as verdadeiras causas do fracasso escolar. As pedagogias da classificação servem para, cada vez mais, construir uma educação compensatória com programas e formas excludentes de escola: de pobres e de ricos, dos que aprendem e não-aprendem, das seriações, das avaliações de conteúdo, das classes de aceleração, turmas de jovens e adultos.


A maior obviedade da pedagogia da classificação é a exclusão, porque ela, em si mesma, vem carregada de valores positivo e negativo, uma vez que classificar significa desqualificar pessoas, significa não torná-las singulares ou substantivas. É como uma tatuagem: marca e define a pessoa para sempre. Na marca que a classificação coloca, impede-se a constituição na semelhança dos pares, dos aliados, da fratria. Ela é dada, antes mesmo da pessoa se constituir como sujeito, não é construída pelo sujeito, é prisioneira del a mesma, não têm escolhas.


Façamos um experimento de pensamento numa antropologia fantástica: Se, de repente ficássemos todos surdos ou cegos, como Saramago imaginou em seu admirável livro "Ensaio sobre a Cegueira", e precisássemos inventar uma nova linguagem começar de novo a ver, a ouvir, a construir outras crenças, narrativas e discursos ou, simplesmente, se tivéssemos, como Sartre, de pensar no judeu como “aquele que os outros consideram judeu", a que conclusão chegaríamos? Decerto, à salutar e revolucionária conclusão: o deficiente é aquele que os outros classificam como deficiente.


Esta simples consideração denuncia uma sutil e tremenda discriminação, construída pela rede social: aquela em que ser diferente significa tornar-se deficiente. Vocês dirão: tudo isso é uma obviedade, e qual seria a questão? A verdadeira questão é a seguinte: como esses grupos, definidos como deficientes, podem sair da identidade classificatória para se constituírem como cidadãos e serem parte ativa na construção da escola? Como sair da pedagogia da classificação, da educação compensatória e dos modelos de exclusão nas escolas? Qual seria a saída para escapar dessa ideologia: assumir a tatuagem da deficiência e se agrupar com os pares da identidade classificatória e se adaptar nela? Pensar na inexorabilidade da identidade classificatória e tirar proveito deja? Ou será, que a classificação realmente impede a liberdade, ou, ao contrário que é a partir do conflito da classificação que os grupos podem se organizar para romper esse modelo? Tentar desconstruí-las e defender as diferenças como construções culturais e políticas dos sujeitos, definidas por MACLAREN (1999). Ou simplesmente entender a lógica não-dialética da classificação: ela existe para que o normal não seja questionado. O normal não se explica: é inato, natural, verdade em si mesmo. O "normal" tornou-se o padrão, a norma, o que possibilita, a manipulação do Outro sem ver esta "alteridade” como instrumento de exploração (SCLIAR, C. 1999). O normal não se coloca em discussão, é inquestionável. É preciso pensar que a diferença seja construída na relação e não reforçar a soberania dos grupos ditos normais, que não se deixam classificar porque são, neles mesmos, a referência, a norma, o caráter universal. É para minimizar os conflitos e as lutas sociais dos grupos “normais” que se prega o discurso de que “todas as maneiras de olhar que acentuam a diferença, subvertem a crença liberal em uma subjetividade universal (nós somos todos apenas pessoas)” (MACLAREN, P. 1999) e, com isso, acreditam que o racismo e o preconceito irão desaparecer, mesmo que eles continuem como a norma produtora da diferença/deficiência.

Romper como o modelo da classificação


Mas o “deficiente” é também uma construção cultural criada pelos Outros que não se incluem nessa classificação. Diferentemente, fazer uma opção, se identificar, se constituir como grupo, significa romper com o modelo da classificação, significa um ato de liberdade, portanto criativo e político. “A liberdade é a razão de ser da política” (…) “E seu domínio de experiência é ação. Os homens são livres enquanto agem, nem antes, nem depois; pois ser livre e agir, são a mesma coisa”. (ARENDT, 1997). Entendo que o encontro como o outro se dê na construção das relações, maximizadas com um tipo de solidariedade, de reconhecimento, afirmação e interação na construção de uma ação política de consolidações de alianças e trocas, marcando as diferenças nas suas formas de significações e construções de sentido político, contra as políticas de assimilação. O primeiro passo é conceber as identidades classificatórias como um princípio não-ético; sair dessas narrativas e tentar construir um espaço político e crítico das representações sociais construídas historicamente é admitir e defender que as mudanças nas pedagogias classificatórias fazem parte das lutas sociais.


A identidade classificatória da normalidade é aterrorizante. Precisamos estar atentos na socie- dade em que vivemos, em que o respeito às diferenças são mascarados, numa relação de tutela e dominação, sob a aparência da "cordialidade". No caso brasileiro, situamos a dita cordialidade bem perto mesmo é da hipocrisia. Atrevo-me a apresentar um caminho que vislumbro para a educação: a construção de uma política voltada para uma pedagogia crítica, construída a partir dos indivíduos e dos sujeitos. Ela começa pela luta do seu conceito -para repensar novos espaços na escola é preciso repensar espaços políticos para discussão e construção de idéias e ações e, principalmente, questionar os modelos classificatórios. Somos construtores de sentido, porque somos construtores de nós mesmos. Quando sujeitos se reafirmam como minoria lingüística e não como deficientes auditivos, estão questionando esses modelos ideológicos e classificatórios construídos pelos outros.


Dizer que há pessoas e comunidades, grupos e minorias, que possuem uma cultura, construída por eles mesmos ao longo da história da humanidade, é sair do lugar do perfeito, normal, e vê-los a partir dos valores construídos e definidos por eles como grupo social, detentor de uma construção cultural, erigida a partir de conhecimentos acumulados na forma de ver o mundo, de se comunicar, de andar, de pensar, raciocinar e de se constituir como sujeito de uma história. É evidente, que essa atribuição de significados construídos é o resultado da não aceitação dos modelos ideológicos de classificação. É incrível como ninguém fica mais impactado, com a linguagem utilizada na Internet. No entanto, fica-se pasmo, paralisado e, muitos ainda negam quando outros grupos humanos construíram uma língua de modalidade gestual-visual. Isso é deficiência ou é construção cultural que tem que ser absorvida e incorporada na sociedade?


A Libras e o Braille não enriquecem a humanidade? Acredito que sim, e ao reconhecer isso, admito que essa é uma construção cultural, um ato de liberdade, uma ação política, uma contribuição positiva para a civilização e toda humanidade. Deixar a visão de deficientes definidos a partir da falta e não como cidadãos políticos é mais do que mudar de partido político -significa construir novas narrativas e se apresentar como sujeitos políticos na sua diferença política. Estas afirmações levam a pensar que a escola precisa se apropriar desse conhecimento, para ser incorporado ao todo e ao singular, e não buscar resolver alternativas legais e burocráticas que tornem a diferença mais suportável, acomodando-se aos discursos e metáforas atribuídos a esses sujeitos.


Sempre temos a tendência para encaixar, modelar e burocratizar as teorias e concepções. As grandes questões que se põem hoje são as da ordem, da tolerância, da solidariedade, da política e da alteridade e, principalmente, do questionamento de todos os modelos classificatórios. Somos iguais apesar de diferentes; somos diferentes apesar de iguais. A diferença do outro implica um duplo movimento de auto e hetero avaliação, processando reconhecimentos e desencontros. No movimento de ver o diferente em mim e no outro, numa construção de relação e solidariedade, deixa-se o lugar do normal. Assim, a escola precisa travar o debate ideológico para a construção de práticas pedagógicas que rompam com a visão maniqueísta do normal e todas as suas conseqüências de exclusão. Utopia? Talvez. Entretanto, valores, conhecimentos e preconceitos mudam porque humanos devem mudar. Ser humano é ser capaz de sempre estar mudando e de ser diferente.





Referências bibliográficas


ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Pespectiva, 1997.

GHIRALDELLI Jr,P. Infância, escola e modernidade. São Paulo: Cortez Editora, 1997

MACLAREN, Peter. Utopias provisórias. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 1999.

SARTRE, Jean-Paul. Reflexões sobre o racismo. Difusão Européia do Livro, 1968

SCLIAR,Carlos. Revista Educação e Realidade. Porto Alegre, RS

Crianças que só copiam têm medo de escrever

SLIDE QUE FIZ SOBRE DEDUÇÃO E INFERÊNCIA

Baixo Desempenho Escolar: Desnutrição ou privação cultural?

PRIVAÇÃO CULTURAL
Ouvi este termo numa reunião e ele passou a ser alvo de pesquisas e de questionamentos perante o atendimento realizado por mim a crianças encaminhadas com dificuldades de aprendizagem.
Este pedaço de palavra parecia que cabia perfeitamente bem em alguns casos que estava construindo ou seja tecendo relações que explicassem a dificuldade de fulaninho..mas depois deixou de ser pano de fundo e passou a ser alvo secreto de interrogações diante da constituição particular dos meus pensamentos insolubres....
Li alguns textos europeus que falavam dentro deste pedaço de palavras de desnutrição, e que esta ideia sociologica surgiu na decada de 70, sendo um dos mais outros estigmas para ROTULAR alunos, separa-los...ou seja uma justificativa...EPA!!!tremi, reli...e continuei...
Feuerstein, psicologo, romeno,em 1994 elaborou o Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI) e seu modelo de Psicodiagnóstico (LPAD). O PEI é um programa de formação cognitiva que tem em vista o incremento do potencial de aprendizagem., quanto a privação cultural ele diz:
Essa síndrome é entendida como a ausência ou insuficiência de interações sociais específicas, é a privação do indivíduo em sua própria cultura..enfatiza que o desenvolvimento cognitivo somente pode acontecer de forma natural e saudável se o indivíduo puder experimentar uma interação humana que lhe forneça os instrumentos para lidar com o mundo.Vygotsky também concebe o desenvolvimento por meio da mediação com outros seres humanos que ‘oferecem’ – consciente e inconscientemente, formal e informalmente – os instrumentos de sua cultura.
Feuerstein (1997) rompe com os paradigmas de que a idade e fatores orgânicos como a herança genética, anomalias cromossômicas, emocionais, sejam impeditivos para a modificabilidade cognitiva e afetiva, sejam irreversíveis e a causa central da falta de aprendizagem.”
A rotulação tambem vem desde que classificamos, avaliamos e massificamos em vidrinhos nas salas de aulas nossos alunos, aqueles carente, vindo de extrema pobreza e que a ESCOLA dita pública, mas com cara ainda de arcaica e classe média...vai rotular impiedosamaente desde deficiencia, retardamento, privação cultural, silabico, pre silabico etc....REPENSAR ESTA PRATICA É PRIMORDIAL..
Diante de outras leituras pude então me reencontrar neste conceito e representa-lo melhor no contexto do meu trabalho, e espero que tenhamos cuidado acurado com estes CLICHES que nos chegam tão sorrateiramente pervertendo nossa linguagem como um pulo de gato disfarçado de maestria.

QUEM TE ADMIRA ?

APRESENTAÇÃO